Nossas Histórias

Histórias do Brique da Redenção

Quarenta e oito anos. Já um jovem senhor.

Ao longo desse tempo, foi amealhando histórias e causos.

Nasceu analógico e, hoje, vai se adaptando, aos poucos,à inteligência artificial. Viu passar por sua rua três ou quatro gerações de porto-alegrenses e visitantes. Testemunhou mudanças, encontros e despedidas. Guardou com carinho as histórias mais divertidas, curiosas e emocionantes, e agora, chegou a hora de dividí-las.

A partir de hoje, começaremos a compartilhar em nossas redes sociais pequenas histórias vividas pelos expositores do Brique da Redenção: as primeiras feiras, os antigos e novos clientes, colegas que já partiram, colegas que entraram a pouco, festas, conquistas; lembranças que cada expositor guarda com afeto.

Sejam bem-vindos!

José Bonifácio de Andrada e Silva nasceu em São Paulo, em 1763. Estadista, cientista e político brasileiro, ficou conhecido como o Patriarca da Independência. Embora considerado conservador, era um progressista, amante das ciências e das artes.

Na virada do século XIX para o XX, uma avenida de Porto Alegre, que margeava o Parque Farroupilha – então chamado Campos da Redenção – foi batizada com seu nome: Avenida José Bonifácio.

Foi nessa avenida que, em 1978, nasceu uma feira de antiguidades inspirada em experiências semelhantes de Buenos Aires e Montevidéu. Com o tempo, outros setores foram incorporados – artesanato, alimentação e artes plásticas – sendo batizada de Brique da Redenção, transformando o espaço em um dos mais importantes pontos turísticos e culturais da cidade.

Texto: e Pesquisa: Edegar Rissi

Criação e Pesquisa: Patricia Rebellato

 
Histórias do Brique da Redenção – 03
Paulo Ricardo Hernandes Ferreira
67 anos – artesão
Também conhecido carinhosamente como “Paulinho da Prata da Lua” ou “Paulinho da Rô”, com quem compartilha a vida e o ofício há quase cinquenta anos.
A conexão com a arte surgiu na infância. Na escola, quando a professora de artes pediu uma pintura, Paulinho, já fascinado pelo surrealismo de Salvador Dalí, reproduziu a figura de um toureiro, inspirada no mestre espanhol. A surpresa veio na apresentação: a professora não conhecia Dalí. Apesar desses desencontros, guarda memórias afetuosas do tempo de colégio, especialmente das aulas de técnicas manuais. “Aprendi a fazer bolsas de sisal!”, recorda, com um brilho no olhar.
– A arte me salva! – Esta frase tornou-se um mantra que Paulinho vem repetindo a sí mesmo ao longo das décadas. É ela que o renova e o impulsiona a seguir criando.
Começou sua história no Brique da Redenção produzindo peças em durepox, na época em que os artesãos ainda expunham rente à cerca do parque Farroupilha. Com a mudança para o canteiro central da José Bonifácio, foi se transmutando em um “alquimista”, produzindo joias em prata. “Passo o dia mexendo com fogo!”
Para ele, a feira tornou-se uma segunda casa. Ao longo de mais de quarenta anos, clientes transformaram-se em amigos, que sempre retornam. Paulinho enfatiza que sua relação com o público transcende o comercial, existe afeto e história. “Faço meu trabalho com tanto prazer. Faço muito bem feito, com esmero, com amor! É muito mais que grana. Grana não paga isso!”, afirma.
Paulinho não esconde o carinho que sente pela feira; para ele, nenhuma outra se iguala ao Brique da Redenção. Recorda com melancolia de um domingo, durante a pandemia, em que passou pela José Bonifácio vazia:
– Deu uma tristeza não ver nenhum artesão por aqui.
A sensibilidade transborda nas lembranças e em cada peça que molda. Certa vez, um cliente lhe entregou 17 quilos de moedas para que criasse “qualquer coisa”. Ao longo de seis meses, foi amarrando uma a uma, até que uma cesta gigantesca surgisse sobre a mesa. Com as moedas restantes, confeccionou pequenas caixinhas.
Adora conversar sobre cinema, literatura, arte, Neil Gaiman e David Bowie. Se voltasse aos bancos acadêmicos, seu desejo seria cursar Artes Visuais, no Instituto de Artes da UFRGS. Trocar ideias e experiências com colegas e professores.
Talvez, mais que aprender, nosso “velho alquimista” teria muito o que ensinar a toda uma geração de jovens artistas.
Texto: Edegar Rissi
Pesquisa: Patricia Rebellato
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Histórias do Brique da Redenção -02
Carlos Alberto Manzoni Haide
Aos 71 anos, Carlos Alberto, o Beco, confunde sua própria trajetória com a do Brique da Redenção. Um dos fundadores do setor de artesanato, ocupa seu espaço na Avenida José Bonifácio desde 1982, mas a lida com a arte começou bem antes. A primeira feira foi a do Largo Zumbi dos palmares; depois, passou pela Ladeira e Rua da Praia, onde a fiscalização era um dos maiores desafios para os artesãos de Porto Alegre.
Seu trabalho evoluiu do chifre e do osso para o couro, até consolidar-se, há 37 anos, na ourivesaria em prata. De suas mãos saem anéis, pulseiras e alianças que carregam décadas de técnica artesanal. Contudo, seu maior orgulho, foi a criação dos filhos, todos sustentados por seu trabalho.
“Não existia calçamento; era chão de terra e levantava muito pó. Terminava a feira e os trabalhos estavam todos sujos”, recorda.
Como ocorreu em diversos momentos na história do Brique, os artesãos se uniram e tomaram a iniciativa. Alguém soube que a prefeitura tinha pedras de basalto sobrando lá no Cais do Porto e foram atrás. Com a luxuosa consultoria de José Lutzenberger, um dos mais importantes ambientalistas brasileiros, receberam as orientações necessárias para pavimentar o local, respeitando a drenagem do solo e a saúde das árvores.
Para auxiliar na obra, Beco e Polenta, parceiros de longa data, começaram a fazer quentão. Todo domingo, vendiam mais de cinquenta garrafões de vinho para o custeio da mão de obra.
Entre as memórias de uma vida inteira na Redenção, sobram causos. Como a vez em que uma cliente se apaixonou por uma aliança feita de moedas: ficou ao lado do marido namorando a peça, foi embora e voltou. A banca estava cheia e, quando Beco se deu conta, a aliança havia sumido, e a “cliente” também.
– Fui atrás. Comecei a andar ao lado dela e falei: “Pô, brincadeira, né? Roubar de mim, um artesão!” Peguei o anel da mão dela e o marido ficou olhando com uma cara de assustado.
Mas esses “sustos” são raros. A maioria dos visitantes do Brique da Redenção são apreciadores de arte e artesanato, que respeitam e valorizam os expositores, fazendo valer a pena os 44 anos que Beco dedica ao seu oficio.
Texto: e Pesquisa: Edegar Rissi

Criação e Pesquisa: Patricia Rebellato 

Histórias do Brique da Redenção 01

JOÃO BATISTA C. DA ROCHA
72 anos – Artesão

João batista nasceu na periferia de Porto Alegre. Do nascimento até os vinte anos, viveu em uma favela. Cresceu em meio a pedreiros, carpinteiros e azulejistas e, curioso por natureza, foi tomando gosto pelo trabalho manual.

“Eu escolhi ser artesão!”

Expositor do setor de artesanato do Brique da Redenção há 43 anos, orgulha-se ao comentar, com um largo sorriso, que sua carteira de artesão é a de número 02. Trabalha com couro: confecciona bolsas, pastas, carteiras e capas de livros. “Tudo feito a mão!”, como gosta de frisar.

Uma frase dita ao seu único filho resume sua dedicação ao ofício:

“Tu pode ser um limpador de banheiro, mas se tu for “o” limpador de banheiro, nunca vai faltar banheiro pra tu limpar.”

Ao longo dessas décadas, acompanhou, de sua banca, o empobrecimento da cidade. Ainda assim, afirma ser possível distinguir claramente a Porto Alegre de antes e depois do Brique da Redenção, destacando a importância da feira para a vida cultural e econômica do município.

Preocupado com a categoria, envolveu-se com a organização do Brique, participando da comissão do setor de artesanato. Lembra com alegria da festa de dezoito anos da feira, quando surgiu a ideia de confeccionar um bolo com dezoito metros de comprimento. Sem patrocínio dos órgãos públicos, os expositores arregaçaram as mangas e buscaram apoio para conseguir os ingredientes. Um grupo de artesãs botou a mão na massa e, no dia do aniversário, um bolo gigante foi montado na avenida e compartilhado entre expositores e visitantes.

João segue firme em seu trabalho e, com orgulho, afirma que nesses 43 anos tirou poucos dias de férias.

Além de ótimo profissional, é um grande contador de histórias. Quem o cumprimenta na feira, aos domingos, corre o risco – ou o privilégio – de um longo e prazeroso bate-papo.

Texto: e Pesquisa: Edegar Rissi

Criação e Pesquisa: Patricia Rebellato 

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